Memória de São Joaquim e Santa Ana, pais de Maria Santíssima

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 O lar dos pais de Nossa Senhora

– Famílias cristãs

– A educação dos filhos. Rezar em família

 

Uma antiga tradição, de que há referências já no século II, atribui esses nomes aos pais da Santíssima Virgem Maria. A devoção por São Joaquim e Santa Ana é uma prolongação da piedade que os fiéis sempre professaram pela Santíssima Virgem. O Papa Leão XIII dignificou esta festa, que era celebrada separadamente até a última reforma litúrgica.

I. FESTEJEMOS ANA E JOAQUIM, pais da Virgem Maria: Deus concedeu-lhes a bênção prometida a todos os povos1.

Uma antiquíssima tradição conservou-nos os nomes dos pais de Santa Maria, que foram, “dentro do seu tempo e das suas circunstâncias históricas concretas, um elo precioso do projeto de salvação da humanidade”2. Por meio deles, chegou-nos a bênção que um dia Deus prometera a Abraão e à sua descendência, pois foi através da sua Filha que recebemos o Salvador. São João Damasceno afirma que os conhecemos pelos seus frutos: a Virgem Maria é o grande fruto que deram à humanidade. Ana concebeu-a puríssima e imaculada no seu seio. “Ó formosíssima criança, sumamente amável! – exclama o Santo Doutor –. Ó filha de Adão e Mãe de Deus! Felizes as entranhas e o ventre de que saíste! Felizes os braços que te carregaram e os lábios que tiveram o privilégio de beijar-te!…”3

São Joaquim e Santa Ana tiveram a imensa sorte de terem podido cuidar e acolher no seu lar a Mãe de Deus. Quantas graças não terá Deus derramado sobre eles! Santa Teresa de Jesus, que costumava pôr os conventos que fundava sob a proteção de São José e Santa Ana, argumentava: “A misericórdia de Deus é tão grande que por nada deixará de favorecer a casa da sua gloriosa avó”4. Jesus, por via materna, descendia diretamente desses santos esposos cuja festa celebramos hoje.

Podemos confiar à intercessão dos pais de Nossa Senhora as nossas necessidades, especialmente as que se referem à santidade dos nossos lares: Senhor, Deus dos nossos pais – suplicamos com uma oração da Liturgia da Missa –, Vós que concedestes a São Joaquim e Santa Ana a graça de darem a vida à Mãe do vosso Filho Jesus, fazei que, pela intercessão destes santos, alcancemos a salvação prometida ao vosso povo5. Ajudai-nos, por sua intercessão, a velar por aqueles que pusestes especialmente sob os nossos cuidados. Ensinai-nos a criar ao nosso redor um clima humano e sobrenatural em que seja mais fácil encontrar-vos a Vós, nosso fim último e nosso tesouro.

II. O PAPA JOÃO PAULO II ensina que São Joaquim e Santa Ana são “uma fonte constante de inspiração na vida cotidiana, na vida familiar e social”. E exorta: “Transmiti mutuamente de geração em geração, junto com a oração, todo o patrimônio da vida cristã”6. Santa Maria recebeu no lar formado por seus pais todo o tesouro de tradições da Casa de Davi que passavam de uma geração para outra; foi nele que aprendeu a dirigir-se ao seu Pai-Deus com imensa piedade; foi nele que conheceu as profecias relativas à chegada do Messias, ao lugar do seu nascimento…

Por sua vez, a Virgem ensinaria a Jesus formas de falar, refrões populares cheios de sabedoria, que anos mais tarde o Senhor empregaria na sua pregação. Dos seus lábios maternais, Jesus terá ouvido com imensa piedade aquelas primeiras orações que os hebreus ensinavam aos seus filhos mal começavam a pronunciar as primeiras palavras. Que boa mestra não teria sido a Virgem! Com que ternura não teria manifestado a riqueza da sua alma cheia de graça!

É muito provável que nós também tenhamos recebido o incomparável dom da fé e muitos bons costumes dos nossos ascendentes, que os foram conservando e transmitindo como um tesouro. Por nossa vez, temos o grato dever de conservar esse patrimônio para transmiti-lo a outros.

Agora que os ataques contra a família parecem recrudescer, devemos preservar com fortaleza esse patrimônio recebido, e procurar enriquecê-lo com a prática das virtudes cristãs e com a nossa fé. Temos de tornar Deus presente no nosso lar mediante esses costumes cristãos de sempre: a bênção dos alimentos, as orações da noite com os filhos mais pequenos…, a leitura de alguns versículos do Evangelho com os mais velhos, alguma breve oração pelas pessoas falecidas, pelas intenções da família e do Papa…, a assistência à Missa do domingo, todos juntos… E a recitação do terço, a oração que os Sumos Pontífices tanto recomendaram que fosse rezada em família. Não é necessário que as práticas de piedade em família sejam numerosas, mas seria pouco natural que não se estabelecesse nenhuma num lar em que todos, ou quase todos, professam ser cristãos.

Já se disse que os pais que sabem rezar com os seus filhos encontram mais facilmente o caminho que os leva ao coração desses filhos. E os filhos nunca se esquecem das ajudas que receberam em crianças dos seus pais: para que rezassem, para que recorressem à Virgem em todas as situações. Como agradecemos as orações que os nossos pais nos ensinaram quando éramos pequenos, as formas práticas de dirigir-nos a Jesus Sacramentado…! É, sem dúvida, a melhor herança que recebemos.

Será também muito grato à nossa Mãe Santa Maria que renovemos uma vez mais o propósito tantas vezes formulado de procurarmos ser sempre instrumentos de união entre os diversos membros da família. Este empenho santo levar-nos-á a pedir todos os dias pelo membro da família que mais precise, a ter maiores atenções com o mais arisco, com aquele que parece fraquejar ou que está doente.

III. SÃO JOAQUIM E SANTA ANA devem ter pensado muitas vezes que Deus queria algo de grande daquela sua filha, cumulada de tantos dons humanos e sobrenaturais, e oferecê-la-iam a Deus como os hebreus costumavam fazer com os seus filhos.

Os pais que fortalecem o seu amor na oração saberão respeitar a vontade de Deus a respeito dos seus filhos, sobretudo quando eles recebem uma vocação de entrega plena a Deus – muitos pais saberão até pedi-la ao Senhor e desejá-la para esses filhos –, porque “não é sacrifício entregar os filhos ao serviço de Deus – costumava dizer o Bem-aventurado Josemaría Escrivá –: é honra e alegria”7, a maior honra, a maior alegria. E os filhos “sentirão toda a beleza de dedicarem as suas energias ao serviço do Reino de Deus”, por assim o terem aprendido de muitas maneiras no lar paterno.

O amor no casamento “pode ser também um caminho divino, vocacional, maravilhoso, instrumento para uma completa dedicação ao nosso Deus”8. Esse amor deve ser eficaz e operativo no que se refere ao seu fruto, que são os filhos. O verdadeiro amor manifestar-se-á no empenho em formá-los para que sejam trabalhadores, austeros, bem educados no sentido pleno da palavra…, e assim venham a ser bons cristãos. Que lancem raízes nas suas almas as sementes das virtudes humanas: a rijeza, a sobriedade no uso dos bens, a responsabilidade, a generosidade, a laboriosidade… E sempre a alegria de uma alma transparente.

Os pais não devem esquecer nunca que são administradores de um imenso tesouro de Deus e que, por serem cristãos, formam uma família na qual está presente o próprio Cristo, o que lhe dá umas características próprias. Não devem ter receio de singularizar-se num ambiente em que muitas vezes a vida familiar nada mais é do que uma sucessão de transigências e permissivismos covardes: pais sem autoridade, filhos rebeldes, que convivem todos como se estivessem numa pensão. Um lar cristão é um remanso de paz e alegria, em que os filhos desenvolvem a sua personalidade própria com uma liberdade amadurecida na responsabilidade e no conselho oportuno e firme dos pais.

Peçamos hoje a São Joaquim e Santa Ana que os lares cristãos sejam lugares onde se encontre facilmente a Deus. Recorramos também a Nossa Senhora. “Todos unidos, elevemos a Ela os nossos corações e, por sua mediação, digamos a Maria, filha e Mãe: Mostra-te como Mãe para todos, oferece a nossa oração, que Cristo a aceite benigno, Ele, que se fez teu Filho”9.

 

(1) Antífona de entrada da Missa do dia 26 de julho; (2) João Paulo II, Homilia, 26-VII-1983; (3) Liturgia das Horas; São João Damasceno, Dissertação 6, sobre a Natividade da Virgem Maria, 6; (4) cfr. M. Auclair, Teresa de Ávila, Quadrante, São Paulo, 1996, pág. 373; (5) Oração coleta da Missa do dia 26 de julho; (6) João Paulo II, No Santuário do Monte de Santa Ana, Polônia, 21-VI-1983; (7) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 22; (8) Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristianismo, 3ª ed., Quadrante, São Paulo, 1986, n. 121; (9) João Paulo II, Homilia, 10-XII-1978.

 

 

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